Poucos se dão conta da influência italiana em Buenos Aires. Com alguma atenção, é possível, porém, confundir o espanhol rio-platense com o italiano. Pra mim, o símbolo mais significativo da Itália ali é a mística Pasaje Barolo (Av. de Mayo, 1370), próximo ao Congresso Nacional. No início do século XX mandaram construir uma enorme tumba para abrigar os restos mortais de Dante Alighieri. E a fizeram com tal empenho, que é impossível não sentir o sinistro ar da Divina Commedia e o enigmático traçado da Maçonaria ao adentrar no edifício.

É uma construção esotérica, maçônica e dantesca se eleva um tanto escondida pelos plátanos, apesar de sua altura. A mando do industrial têxtil Luigi Barolo, em 1919, o arquiteto Mario Palanti elaborou um complexo esquema em estilo eclético, no qual os estudiosos de Dante e de Maçonaria poderiam utilizá-lo, com tranquilidade, como um meio de “leitura” e ensino. Todos os elementos que compõem o prédio têm um significado a ser desvendado, ora maçônico, ora dantesco. Assim como são 100 os cantos e 22 as estrofes dos versos da obra de Alighieri, o prédio tem 100 metros de altura e 22 pisos. Esta pretendia ser a morada eterna de Dante, mas Barolo não convenceu o Governo Italiano e o que era para ser uma tumba, vicejou como um monumento.

O edifício está dividido em 3 partes, como o poema: inferno, purgatório e céu. A entrada é pela representação do inferno. Ali, dragões com bolas de fogo dão as boas-vindas e o hall está coalhado de símbolos da Maçonaria. Tanto Barolo, quanto Palanti eram maçons e caprichosamente gravaram no teto do inferno frases de Dante, usadas por maçons, tais como, “usa tua palavra como um ornamento”, “toda beleza forma uma unidade”, “corpo e alma vê e detecta o quão ruim é agradar a todos.” (em tradução livre). Pagando, é possível fazer uma visita guiada que te levará através do purgatório e, aos mais corajosos, até o Jardim do Éden. O caminho para a expiação vai do piso 1 até o 14, cada dois lances representando um pecado capital. Porém, do 14º. até o 22º. piso, estão os oito corpos celestes da Divina Comédia que conduzem ao Epíreo, a última esfera do Paraíso, a morada da Luz Divina. E podemos chegar lá!

Essa luz é um farol dentro de uma redoma de vidro, onde o visitante entra e, dali, vislumbra a imensidão de Buenos Aires, as águas do Rio de La Plata e avista o Uruguai. Assim como descreveu Dante, o caminho até lá, vai-se estreitando e serpenteando. Junte coragem, fôlego e contorcionismo e chegará bem até o Paraíso.  Do outro lado do Rio, em Montevidéu, existe um prédio gêmeo ao Barolo, chama-se Palácio Salvo (com 95m de altura e 27 pisos, na Plaza Independência, 848), que também tem um farol. Todos os dias 04/06, exatamente entre 7:45h e 8h o cruzeiro do sul se alinha com os dois faróis. Há quem sustente que isso abre uma passagem mística e que as luzes apontam um caminho para o Além. Parece que teve gente que até sumiu aí. Podes ir conferir, se voltares, conta-nos!

Tudo sobre visitas guiadas diurnas e noturnas aqui.

PS.: sem fotos da Visão do Paraíso, para não estragar a surpresa!

Esse texto é em homenagem ao amigo e viajeiro Leandro.

Recepção

Estátua de Dante ao centro, vista do Purgatório.

A caminho dos céus (pode ir por elevador também)

Visão do Inferno