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DIA 04/06 APROXIMA-SE: PASSAGEM PARA O ALÉM

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Poucos se dão conta da influência italiana em Buenos Aires. Com alguma atenção, é possível, porém, confundir o espanhol rio-platense com o italiano. Pra mim, o símbolo mais significativo da Itália ali é a mística Pasaje Barolo (Av. de Mayo, 1370), próximo ao Congresso Nacional. No início do século XX mandaram construir uma enorme tumba para abrigar os restos mortais de Dante Alighieri. E a fizeram com tal empenho, que é impossível não sentir o sinistro ar da Divina Commedia e o enigmático traçado da Maçonaria ao adentrar no edifício.

É uma construção esotérica, maçônica e dantesca se eleva um tanto escondida pelos plátanos, apesar de sua altura. A mando do industrial têxtil Luigi Barolo, em 1919, o arquiteto Mario Palanti elaborou um complexo esquema em estilo eclético, no qual os estudiosos de Dante e de Maçonaria poderiam utilizá-lo, com tranquilidade, como um meio de “leitura” e ensino. Todos os elementos que compõem o prédio têm um significado a ser desvendado, ora maçônico, ora dantesco. Assim como são 100 os cantos e 22 as estrofes dos versos da obra de Alighieri, o prédio tem 100 metros de altura e 22 pisos. Esta pretendia ser a morada eterna de Dante, mas Barolo não convenceu o Governo Italiano e o que era para ser uma tumba, vicejou como um monumento.

O edifício está dividido em 3 partes, como o poema: inferno, purgatório e céu. A entrada é pela representação do inferno. Ali, dragões com bolas de fogo dão as boas-vindas e o hall está coalhado de símbolos da Maçonaria. Tanto Barolo, quanto Palanti eram maçons e caprichosamente gravaram no teto do inferno frases de Dante, usadas por maçons, tais como, “usa tua palavra como um ornamento”, “toda beleza forma uma unidade”, “corpo e alma vê e detecta o quão ruim é agradar a todos.” (em tradução livre). Pagando, é possível fazer uma visita guiada que te levará através do purgatório e, aos mais corajosos, até o Jardim do Éden. O caminho para a expiação vai do piso 1 até o 14, cada dois lances representando um pecado capital. Porém, do 14º. até o 22º. piso, estão os oito corpos celestes da Divina Comédia que conduzem ao Epíreo, a última esfera do Paraíso, a morada da Luz Divina. E podemos chegar lá!

Essa luz é um farol dentro de uma redoma de vidro, onde o visitante entra e, dali, vislumbra a imensidão de Buenos Aires, as águas do Rio de La Plata e avista o Uruguai. Assim como descreveu Dante, o caminho até lá, vai-se estreitando e serpenteando. Junte coragem, fôlego e contorcionismo e chegará bem até o Paraíso.  Do outro lado do Rio, em Montevidéu, existe um prédio gêmeo ao Barolo, chama-se Palácio Salvo (com 95m de altura e 27 pisos, na Plaza Independência, 848), que também tem um farol. Todos os dias 04/06, exatamente entre 7:45h e 8h o cruzeiro do sul se alinha com os dois faróis. Há quem sustente que isso abre uma passagem mística e que as luzes apontam um caminho para o Além. Parece que teve gente que até sumiu aí. Podes ir conferir, se voltares, conta-nos!

Tudo sobre visitas guiadas diurnas e noturnas aqui.

PS.: sem fotos da Visão do Paraíso, para não estragar a surpresa!

Esse texto é em homenagem ao amigo e viajeiro Leandro.

Recepção

Estátua de Dante ao centro, vista do Purgatório.

A caminho dos céus (pode ir por elevador também)

Visão do Inferno

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Sabes o D’Alessandro?

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O Dale, meia do Inter, sabes? Ele tem umas tatuagens e uma delas é bastante significativa… para os argentinos. Não é novidade que a Argentina é um país super-hiper Católico Apostólico Romano, está na Constituição Federal até. O dia da Pátria é comemorado na Catedral Metropolitana, junto à cripta do Libertador General San Martín, com a participação do Chefe de Estado, não tem desfile cívico-militar, é missa mesmo. No coração de muitos argentinos, entretanto, há um rincão especial para os milagres do Gauchito Gil, a devoção pagã mais argentina que conheci.

De norte a sul e de leste a oeste, rodando pelas maravilhosas rodovias argentinas, é possível ver uns pontos vermelhos surgindo na imensidão pampeana. No meio do nada, na vastidão verde, aparecem uns altares multi-enfeitados, sob a sombra de um arvoredo, na cor vermelho vivo para ser visto a quilômetros. São santuários para honrar o gaúcho Antonio Mamerto Gil Núñez, ou El Gauchito Gil, ou ainda Curuzú Gil, em guarani. A história do Gauchito é mais ou menos assim: Antonio Gil desertou por não querer participar de uma guerra fratricida entre colorados e celestes na Província de Corrientes lá pelo final do Séc. XIX.

Condenado à degola, obteve perdão. Ocorre que o executor não recebeu o mandado de soltura a tempo. Antonio Gil rogou-lhe que esperasse, porque o perdão estaria a caminho. Como o executor não aguardou, Gil disse-lhe que no momento que lhe chegasse o perdão, o executor receberia a notícia de que seu filho estaria desenganado por uma doença desconhecida, e, como derramaria sangue inocente, poderia rezar pedindo para que Gil intercedesse junto a Deus e curasse o guri. Gil foi degolado, o verdugo recebeu o mandado e soube que seu filho estava morrendo. Rezou, pediu perdão e o Gauchito Gil curou o piá.

Antonio Gil lutava do lado colorado, por isso a cor vermelha dos santuários. E pasmem! Onde o D’Alessandro foi mais exitoso em seu futebol? No Colorado. Sem falar que o River, onde o Dale iniciou sua jornada e foi titular, também é vermelho (colorado).  Se um dia observarem a panturrilha esquerda (acho que é a esquerda), quando não estiver com o indefectível meião, poderão ver o Gauchito ali, abençoando o Dale, sua perna e sua carreira. Detalhe importante, o Gauchito é mega vingativo, se prometerem algo em troca de um milagre, é melhor cumprirem…

São tantos os milagres atribuídos ao Gauchito e a devoção é tamanha, que um padre católico, Julián Zini, escreveu a letra de um chamamé em homenagem ao milagreiro.

Olhem aí o Gauchito tatuado.

Olhem aí o Gauchito tatuado.

É devoção forte!

É devoção forte!